sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Jota pê e vê.

I

Eles eram feitos um para o outro, e sabiam disso. Conheciam-se desde a infância: foram vizinhos de rua e colegas na escola. João Pedro e Verônica formavam um casal sem defeitos, e ninguém – nem eles próprios – discordava disso. Eram ao mesmo tempo semelhantes e complementares. Discutiam muito, e divertiam-se mais. Tudo o que João fazia, pensava ou sentia, Verônica sabia; e vice versa. Sempre vice-versa.

Fisicamente, combinavam ainda mais. Ambos eram bonitos, ele mais que ela. Cabelos pretos, olhos tanto quanto, nariz italiano e uma composição facial bem equilibrada. Ela era de uma beleza diferente. Cabelos castanhos claros, olhos de vitória-régia e expressão atrevida - creio eu que pelo seu nariz ligeiramente empinado. Ele media um metro e setenta e oito; ela, um meia sete. O leitor há de confirmar – com uma régua se necessário – que onze centímetros é a diferença ideal para uma harmonia naturalista e fotográfica. Ainda nisso, eram perfeitos.

Havia apenas uma pedra no caminho do matrimônio de João Pedro e Verônica: não se amavam, nem nunca o fizeram.

II

Logo cedo, aos quinze anos, constataram a vocação de casal. Os dois acharam conveniente demais para ser verdade, e se provaram certos. Não que isso os impediu de tentar. Inclusive, com dezessete, uma boa quantidade de rum e coca-cola tirou-lhes a virgindade. Obra completa do álcool, já que a paixão passou longe daquela noite.

Quando atingiram a maioridade, desistiram de tentar. Concluiu-se que a perfeição não lhes servia e continuaram amigos, apesar de terem a consciência de que exerciam o papel errado na mise-en-scène de suas vidas.

A partir daí, trombaram com uma seqüência de desilusões amorosas, cada qual servindo de consolo para a do outro. Entre ex’s e atuais, o fantasma da conveniência voltava a assombrar. Será que faziam a coisa certa? Continuaram a ignorar suas qualidades como enamorados.

O impaciente leitor deve perguntar a que horas o casal se juntará. Pois lhes digo que se aproxima; foi Verônica quem deu o primeiro impulso. Já eram recém-formados, aos vinte e quatro. Ele, engenharia; ela, psicologia (perfeito!).

_Proponho um trato, disse ela, decidida.

_Um trato?

_Temos vinte e quatro anos e uma vida inteira pela frente. Mas Deus sabe o quanto já tivemos infortúnios amorosos.

_Nem me diga!, concordou de bate-e-pronto.

_Continuamos tentando até certo ponto. Se ainda estivermos sós, casamos.

_Uma idade limite?

_Exato! Digamos..., pensou.

_33?!

III

Dali a quatro anos, João esteve muito perto de casar-se. Noivou uma mulher simpática e muito bonita que era bem vista por todos. Chegaram a marcar a data da cerimônia e preparar toda a recepção dos convidados. Uma semana antes, a moça, apavorada, fugiu com o ex-namorado argentino. Os entes próximos atribuíam à fuga e o desespero da noiva um único motivo: ela sabia que nunca seria uma Verônica na vida de João Pedro.

Ela, Verônica, continuou pulando de caso em caso, sempre descobrindo novos homens com quem não seria feliz.

Até que ambos passaram pelo trigésimo terceiro aniversário e se viram encurralados diante da própria promessa. Estavam sós, como previa o regulamento informal, e eles nunca foram de descumprir acordos.

Casaram-se.

IV

Levavam uma vida senão amorosa, divertidíssima. Afinal, sempre se deram bem, e não era uma convivência diária que destruiria a boa relação dos dois. Brincavam, cozinhavam, trocavam confidências, apenas não se amavam. Não no sentido poético da palavra – apesar de algumas vezes o fazerem no sentido físico, para aliviar tensões.

Foi daí que João conheceu alguém, e Verônica idem. Não podiam cobrar-se fidelidade mútua naquelas circunstâncias, e a idéia de separação também não lhes agradava; ainda se gostavam, afinal. Optaram por ter amantes, os dois.

Amavam loucamente seus casos extraconjugais e tinham, em casa, a melhor relação matrimonial. Assim ficaram, assim viveram. Felizes, por encontrar um pelo outro o amor de suas vidas, fora de suas próprias vidas.


Bernardo Kircove

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(Com o perdão do jabá)

2 comentários:

Anônimo disse...

Porque é muita sorte o amor da sua vida estar justamente na sua vida...

Caio Scot disse...

Interessante, gostei bastante!