I
Eles eram feitos um para o outro, e sabiam disso. Conheciam-se desde a infância: foram vizinhos de rua e colegas na escola. João Pedro e Verônica formavam um casal sem defeitos, e ninguém – nem eles próprios – discordava disso. Eram ao mesmo tempo semelhantes e complementares. Discutiam muito, e divertiam-se mais. Tudo o que João fazia, pensava ou sentia, Verônica sabia; e vice versa. Sempre vice-versa.
Fisicamente, combinavam ainda mais. Ambos eram bonitos, ele mais que ela. Cabelos pretos, olhos tanto quanto, nariz italiano e uma composição facial bem equilibrada. Ela era de uma beleza diferente. Cabelos castanhos claros, olhos de vitória-régia e expressão atrevida - creio eu que pelo seu nariz ligeiramente empinado. Ele media um metro e setenta e oito; ela, um meia sete. O leitor há de confirmar – com uma régua se necessário – que onze centímetros é a diferença ideal para uma harmonia naturalista e fotográfica. Ainda nisso, eram perfeitos.
Havia apenas uma pedra no caminho do matrimônio de João Pedro e Verônica: não se amavam, nem nunca o fizeram.
II
Logo cedo, aos quinze anos, constataram a vocação de casal. Os dois acharam conveniente demais para ser verdade, e se provaram certos. Não que isso os impediu de tentar. Inclusive, com dezessete, uma boa quantidade de rum e coca-cola tirou-lhes a virgindade. Obra completa do álcool, já que a paixão passou longe daquela noite.
Quando atingiram a maioridade, desistiram de tentar. Concluiu-se que a perfeição não lhes servia e continuaram amigos, apesar de terem a consciência de que exerciam o papel errado na mise-en-scène de suas vidas.
A partir daí, trombaram com uma seqüência de desilusões amorosas, cada qual servindo de consolo para a do outro. Entre ex’s e atuais, o fantasma da conveniência voltava a assombrar. Será que faziam a coisa certa? Continuaram a ignorar suas qualidades como enamorados.
O impaciente leitor deve perguntar a que horas o casal se juntará. Pois lhes digo que se aproxima; foi Verônica quem deu o primeiro impulso. Já eram recém-formados, aos vinte e quatro. Ele, engenharia; ela, psicologia (perfeito!).
_Proponho um trato, disse ela, decidida.
_Um trato?
_Temos vinte e quatro anos e uma vida inteira pela frente. Mas Deus sabe o quanto já tivemos infortúnios amorosos.
_Nem me diga!, concordou de bate-e-pronto.
_Continuamos tentando até certo ponto. Se ainda estivermos sós, casamos.
_Uma idade limite?
_Exato! Digamos..., pensou.
_33?!
III
Ela, Verônica, continuou pulando de caso em caso, sempre descobrindo novos homens com quem não seria feliz.
Até que ambos passaram pelo trigésimo terceiro aniversário e se viram encurralados diante da própria promessa. Estavam sós, como previa o regulamento informal, e eles nunca foram de descumprir acordos.
Casaram-se.
IV
Levavam uma vida senão amorosa, divertidíssima. Afinal, sempre se deram bem, e não era uma convivência diária que destruiria a boa relação dos dois. Brincavam, cozinhavam, trocavam confidências, apenas não se amavam. Não no sentido poético da palavra – apesar de algumas vezes o fazerem no sentido físico, para aliviar tensões.
Foi daí que João conheceu alguém, e Verônica idem. Não podiam cobrar-se fidelidade mútua naquelas circunstâncias, e a idéia de separação também não lhes agradava; ainda se gostavam, afinal. Optaram por ter amantes, os dois.
Amavam loucamente seus casos extraconjugais e tinham, em casa, a melhor relação matrimonial. Assim ficaram, assim viveram. Felizes, por encontrar um pelo outro o amor de suas vidas, fora de suas próprias vidas.
Bernardo Kircove
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(Com o perdão do jabá)
2 comentários:
Porque é muita sorte o amor da sua vida estar justamente na sua vida...
Interessante, gostei bastante!
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