Rodrigo acordou às cinco e meia da manhã, como de costume. Seu expediente começa oito horas apenas, mas o trânsito carioca não colabora com seu sono – apesar da distância considerável de sua casa para o trabalho, é o arrastar dos carros pela manhã que causa tamanha demora no transporte. Dentro do ônibus, necessariamente lotado todos os dias, Rodrigo percebeu que o engarrafamento estava consideravelmente maior do que o usual e olhou o relógio – chegaria atrasado, na certa. Pela janela, olhou uma carreta virada na rua e se perguntou por que um motorista descuidado precisava estar justamente no seu caminho. Há tantos caminhos para se atrapalhar! (Como é triste a vida de Rodrigo...)
Formado economista, Rodrigo trabalha com análise de dados em um banco. O emprego pode ser caracterizado como um pé nos colhões. Em um cubículo, o analista passa o dia inteiro olhando a tela de um computador tentando encontrar algo interessante no emaranhado de números. Raramente encontra, e o trabalho consiste em escrever relatórios de tempos em tempos para que o patrão saiba o montante de dinheiro que ganhou em determinado período, em cima de juros extorsivos e pensionistas que não entendem um décimo da lógica financeira. É realmente um saco, e ele o odeia profundamente. (Como é triste a vida de Rodrigo...)
Como previa, chegou atrasado ao banco e foi obrigado a ouvir repreensões mal elaboradas de seu primeiro superior: Sr. Oliveira, um coroa barrigudo dono de gravatas esdrúxulas e um intelecto duvidoso. Quando alcançou o seu cubículo, se deparou com uma respeitável papelada, indicando que levaria a tortura pra casa. O café do escritório estava frio; geralmente, ele é só aguado. (Como é triste a vida de Rodrigo...)
Almoçou com um bando de gente chata, do tipo que se vangloria pelas mediocridades que realizam no trabalho e nunca tem nada de interessante a dizer. A conversa estava pior que o contrafilé daquele lugar vagabundo. Conseguiu escapar mais cedo da mesa; tinha uma conta para pagar. Que surpresa! Pegou uma fila enorme no banco e, prestes a ser atendido, enfrentou uma daquelas quedas de sistema que acontecem bem na hora do almoço. Desistiu e voltou para o escritório. Afinal, ainda havia muitos dados a serem analisados. (Como é triste a vida de Rodrigo...)
Um pouco antes de o relógio bater seis horas e voar daquele inferno em velocidade de atleta, ele pensou o quanto mergulhava no marasmo e teve medo. Considerou a idéia de não voltar amanhã. Começou a chover quando Rodrigo pôs os pés para fora do prédio. Sabia o que isso significava: mais trânsito. No ônibus lotado, chacoalhou até em casa. (Como é triste...)
Encharcado e irritado depois do dia insuportável que passou, abriu a porta e deu de cara com sua mulher no sofá; e concluiu que aquele foi o melhor dia de sua vida, pois que o sorriso de sua amada havia sido ainda mais maravilhoso que o de ontem; e o de antes de ontem. (Como é lindo o amor de Rodrigo!)
Bernardo Kircove
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(Com o perdão do jabá)
3 comentários:
que lindoooooooooooooooooooooo, meeo!
No meio do texto eu pensei, não é possível que o pobre do rodrigo não mereça uma coisa boa...
Lindo, lindo!!!
parabens de novo!
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