A tarde monótona de outono caía lenta quando Luiza questionava a si mesma se havia feito a coisa certa. Na noite anterior, a jovem morena terminava um namoro de quatro anos que há dois meses tornara-se noivado. A personalidade intensa de Beto – o noivo – se sobrepôs ao amor da moça e impossibilitou uma relação saudável; era ciumento, possessivo e inconseqüente. Mas mistura explosiva de gênios tinha uma razão poeticamente aceita: amava demais Luiza.
O que, a princípio, parecia ser uma decisão sensata, começava a confundir a moça nos mínimos detalhes. Enquanto preparava um lanche um pouco deprimente (sanduíche de atum com suco de goiaba), pensava nos bons momentos que passara com Beto. Quando não estava surtado de ciúmes, ele era um sujeito divertidíssimo. “O caráter de um homem extravasa em pequenas atitudes.” Luiza imaginava se sua mãe estaria certa. No fundo, acreditava que, uma vez casado, ele poderia amadurecer e se esforçar para resolver os próprios problemas.
Não se concentrou no livro que tentou ler depois da refeição. Os Últimos Poemas de Pablo Neruda não lhe foram atraentes e continuou a julgar seu término. Já estava decidida de que fora influenciada por familiares e amigos; nenhum deles via a relação com bons olhos, nem nunca o fizeram. Tentava mensurar o tamanho dessa influência, quase acreditando que confundiu a vontade de outrem com a sua própria.
Luiza foi para a varanda admirar a noite gélida que se anunciava. Sentia o vento beijando-lhe o rosto e desejava um calor amigo para se proteger da lua que a encarava. A cada momento, aumentava o saudosismo em relação a Beto. Os sentimentos iam se juntando um por um, até formar uma massa única de arrependimento. Era irreversível. Pouco tempo passou até encontrar a óbvia epifania: havia cometido um erro e precisava repará-lo.
Tomou um banho rápido, mas revigorante, e partiu para o apartamento do noivo. No caminho, pensava ansiosa nos novos tempos de amor que estavam por vir. Chegando ao prédio, foi entrando sem cerimônias. Há muito o porteiro já a conhecia e nem interfonava.Subiu feliz até o décimo primeiro e tocou a campainha, apesar de ainda ter a chave consigo. Sem resposta, notou a porta destrancada e entrou chamando por Beto. Passou pela cozinha, pela sala e abriu a porta do quarto. Não viu nada mais que um corpo ensangüentado, com um buraco calibre .38 na têmpora e um bilhete apertado contra o peito: “Por você, Luiza.”.
.
.
.
.
.
Bernardo Kircove.
3 comentários:
pooo achei que ia ter um final feliz.. que droga.. iuahaiuh
aah seus textos estao muito legais! fazia muito tempo que nao passava por aqui.. vou visitar mais frequentemente. :)
beejos!
Ai!
Que horror!
Adoro!!!
Bjs
Porra, bk, seus contos sao MTO bons, volta a postar!
Postar um comentário