segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A minha inveja do Botafogo.

Como rubro-negro convicto, o título deste texto é um afronto à minha própria existência futebolística. Mas é preciso admitir: minha relação com o Botafogo tem um calcanhar de Aquiles.

No que tange o relvado e suas imediações, ainda estou seguro de minha crença. Mas eles têm algo que nunca teremos e posso afirmar, inclusive, que nunca estivemos perto de tê-lo. A propriedade – por que não título? - mais valiosa do Botafogo tem nome, sobrenome e bafo de uísque: Vinícius de Moraes. Ser dono de um coração como o dele eleva o alvinegro a um nível superior de poesia dos gramados. Afinal, não bastaria ter Garrincha sem Vinícius para transcrevê-lo.

O que realmente me atormenta não é simplesmente o Poetinha torcer (veja bem, no presente) para sua estrela solitária. Isso acontece. O problema é que eles possuem uma identificação inabalável. Isso me irrita. As figuras de Vinícius e do Botafogo foram feitas uma para a outra. Chega a ser patético imaginá-los sem se corresponderem. Façamos uma comparação que ressalta esta peculiaridade azucrinante: o Fluminense tem Chico Buarque, outro motivo de orgulho, mas isso não me incomoda. Seu samba transita pelo Rio, é carioca demais para ser exclusivo. Chico podia muito bem ser Flamengo ou Vasco, não me surpreenderia - o que torna esta uma relação mais saudável para mim. Não é o caso, o poeta não combina com nada mais.

Tudo em Vinícius e no Botafogo há de ser sofrido e apaixonado. Mesmo quando explodidos de alegria, ainda carregam uma bela dose de melancolia. Por natureza, ambos poetisam a banalidade e tornam o cotidiano um lugar mais dramático e prazeroso de se viver.

A eles, parabéns pela honra de ter Vinícius. Mas, como ferramenta de alívio à minha paixão particular, digo que também tenho orgulho do ritmo de Jorge Ben – e muito.

2 comentários:

B.Reis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina disse...

Jorge é Bem, carioca.