domingo, 18 de março de 2012

Da concepção

Pelas entranhas de um amor difícil, o olhar gelado. O coração morno, pré-aquecido por infortúnios. Maltratado pela paixão crua que não se deixa mais levar. O sorriso esconde os dentes, mas extravasa o beijo - molha a carne e trai os olhos. As pernas balançam, mas não são as mesmas. Do ritmo alegre, fez-se mecânico; quase perdeu a graça, não fosse tanta leveza.

Da ação

Assim chegou. Como quem quer muito e não pode nada. Fez-se simples, apesar de complexa. Rebolou ideias, dançou sentimentos. Deu a entender o ceticismo, mas logo escapou o fogo subversivo. Não conseguiu ocultar uma vida de paixões enraizadas. Tentou fechar a porta. Não pôde, aceitou a condição: fora moldada para o amor. Experimentou. Buscou diversidade para chocar a consciência, mas confirmou: era muito Julieta, pouco Capitu. Menos mistério, mais entrega.

Da visão

Fez questão de mostrar que gostou. Exibiu interesse, munida de olhos felinos. De lá pra cá, entendeu. Precisava. Percebeu o olhar queimando lento, o coração fervendo de novo. Esgarçou a boca. O sorriso voltou a puro beijo molhado. Previu, ritmou as pernas por vontade, pois soube: alegrariam mais uma vez.

Da construção

Beijava, rolava, amava. Acima de tudo, valorizava. Sabia o que tinha e gostava. Aos poucos, perdia o inevitável desacreditar. Crescia na conversa, curtia no momento. Falava muito, ouvia mais. Entregava como nunca. Suava, cheirava, mexia, satisfazia. Feliz, acordava e dormia.

Da repetição

Traiu. Não Ela, ele. O corpo, de menos. Traiu também cabeça, peito, palavra. Chorou. Não ele, Ela. Sofreu, levantou, caiu de novo. Entendeu, mas não compreendeu. Andou, fugiu, correu, mas lembrou. Resposta, procurou; esperança esmoreceu.

Da destruição

Mudará. Não mais entregará, não mais acreditará. A vida, diferente, viverá. Senão triste, melancólica. Não buscará, desistirá. Desta vez, de verdade. Abraçará com vontades, mas sem anseios. Dormirá alegre, mas acordará sem pretender. Nem mesmo quererá. Se acostumará. O outro, olhará de lado. Mostrará, mas não cederá. Os infortúnios, agora produzirá; nunca sofrerá.

Um coração valioso, perder-se-á.







bernardo kircove






Um comentário:

Anônimo disse...

Emocionantemente lindo