Prólogo
Uma sacada rápida, um pensamento estúpido, uma metáfora
barata. Tudo que lhe passa pela cabeça pode ajudar a entender sua própria vida.
Todas as conclusões, as ínfimas e as complexas, resultam do acúmulo de experiências.
Não as desperdice, são o retrato mais fiel de você mesmo.
I
Ele sempre
esteve por Ela. A relação não se caracterizava como duradoura, mas bonita.
Honesta e bonita. A inconstância d’Ela era atraente, Ele gostava de exercer o
instinto protetor. Sempre se viu ao lado das meninas que precisam de ajuda. Não
por serem fracas; o contrário até. Fortes o bastante para admitir apoio. Era
impossível vê-la tropeçar sem senti-lo em seguida, evitando a queda ou
amenizando os ferimentos.
Como tudo na vida, não foi eterno. Mas não era para ser
passageiro. Quando terminaram no âmbito do amor, foi-se também do
companheirismo. Por culpa d’Ela, deve-se reconhecer. Com o término ainda
fresco, Ele buscou continuar afável. Permanecer disponível e mesmo procurar o
contato ao vê-la afastando-se. Acabou desistindo. Sem mágoas, é verdade. Em um
processo natural que o entristeceu, mas passou longe de abatê-lo.
Ela também não fez por mal. Conheceu novas pessoas e uma outra,
em especial. No começo, tentou evitar a distância, mas aceitou. Estava tudo tão
bem que a presença d’Ele já não a fazia suspirar tanto. Contentou-se em sentir
gratidão. Achava que era suficiente. Foi, por algum tempo.
II
Outra vez, como
tudo na vida, os novos também não foram eternos. Mas, agora, de tão recentes,
pouco escaparam da superficialidade. A partir daí, ela experimentou momentos
mais duros de fraqueza. Não tinha a quem recorrer, Ele estava em um passado
distante. Sabia que se o procurasse, Ele não hesitaria. Também sabia que não
seria a mesma coisa. Teve que encarar a dor sozinha, sem nunca esquecer como
aquele porto-seguro faltava.
III
Um dia, voltando pra casa em seu estado choroso
permanente, olhava o céu nublado pela janela do ônibus. Assistiu as gotas caírem
e dançarem no vidro de novo; havia chovido pela manhã, cessado na tarde e
voltavam ao início da noite. Apalpou a bolsa em busca do guarda-chuva e nada
encontrou. Esqueceu no escritório. Foi daí que, abrupta e involuntária, a
epifania arrebatou seu pensamento. Você
só esquece o guarda-chuva quando não está mais chovendo. Então, se a água cai
outra vez, você está despreparado – e arrependido.
Epílogo
Depois deste dia, sempre que Ela percebia ter esquecido o guarda-chuva, descia do ônibus e voltava para buscá-lo.
Bernardo Kircove, 08/05/2012.
2 comentários:
parabéns pela sensibilidade e pela ótima escrita.
Amei...
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