terça-feira, 8 de maio de 2012

Ela, Ele e a chuva.



Prólogo

            Uma sacada rápida, um pensamento estúpido, uma metáfora barata. Tudo que lhe passa pela cabeça pode ajudar a entender sua própria vida. Todas as conclusões, as ínfimas e as complexas, resultam do acúmulo de experiências. Não as desperdice, são o retrato mais fiel de você mesmo.


I
            Ele sempre esteve por Ela. A relação não se caracterizava como duradoura, mas bonita. Honesta e bonita. A inconstância d’Ela era atraente, Ele gostava de exercer o instinto protetor. Sempre se viu ao lado das meninas que precisam de ajuda. Não por serem fracas; o contrário até. Fortes o bastante para admitir apoio. Era impossível vê-la tropeçar sem senti-lo em seguida, evitando a queda ou amenizando os ferimentos.
            Como tudo na vida, não foi eterno. Mas não era para ser passageiro. Quando terminaram no âmbito do amor, foi-se também do companheirismo. Por culpa d’Ela, deve-se reconhecer. Com o término ainda fresco, Ele buscou continuar afável. Permanecer disponível e mesmo procurar o contato ao vê-la afastando-se. Acabou desistindo. Sem mágoas, é verdade. Em um processo natural que o entristeceu, mas passou longe de abatê-lo.
            Ela também não fez por mal. Conheceu novas pessoas e uma outra, em especial. No começo, tentou evitar a distância, mas aceitou. Estava tudo tão bem que a presença d’Ele já não a fazia suspirar tanto. Contentou-se em sentir gratidão. Achava que era suficiente. Foi, por algum tempo.

II
            Outra vez, como tudo na vida, os novos também não foram eternos. Mas, agora, de tão recentes, pouco escaparam da superficialidade. A partir daí, ela experimentou momentos mais duros de fraqueza. Não tinha a quem recorrer, Ele estava em um passado distante. Sabia que se o procurasse, Ele não hesitaria. Também sabia que não seria a mesma coisa. Teve que encarar a dor sozinha, sem nunca esquecer como aquele porto-seguro faltava.

III
            Um dia, voltando pra casa em seu estado choroso permanente, olhava o céu nublado pela janela do ônibus. Assistiu as gotas caírem e dançarem no vidro de novo; havia chovido pela manhã, cessado na tarde e voltavam ao início da noite. Apalpou a bolsa em busca do guarda-chuva e nada encontrou. Esqueceu no escritório. Foi daí que, abrupta e involuntária, a epifania arrebatou seu pensamento. Você só esquece o guarda-chuva quando não está mais chovendo. Então, se a água cai outra vez, você está despreparado – e arrependido.


Epílogo

             Depois deste dia, sempre que Ela percebia ter esquecido o guarda-chuva, descia do ônibus e voltava para buscá-lo.





Bernardo Kircove, 08/05/2012.

2 comentários:

Anônimo disse...

parabéns pela sensibilidade e pela ótima escrita.

Anônimo disse...

Amei...