"A candeia do corpo são os olhos;
de sorte que, se os teus olhos forem bons,
todo o teu corpo terá luz."
Mateus, 6:22. Novo Testamento.
I
A voz de Helena estava entrecortada, como numa ligação ruim. Gaguejava muito, transparecendo um charme inevitável; e tinha o nariz mais vermelho que o normal, como uma pitanga prestes a atingir o chão. Apesar disso, nenhuma lágrima escorria de seus olhos azuis, alegres e indomáveis.
Os olhos sempre foram o cartão de visitas de Helena. Cianos como o céu polar, não havia quem não os elogiassem à primeira vista. Eram seu maior trunfo; faziam jus à seu nome de princesa troiana. Desde os tempos escolares, bastavam para alcançar o que desejasse: um primeiro beijo, uma boa nota, o perdão de seus pais.
Se para a maioria, os olhos são a janela da alma, para Helena eram os portais de seu corpo, d’onde se tinha a visão do que estava por vir.
E era nesses olhos que Cláudio fitava. Delicado – porém firme -, ele punha fim a uma relação de dois anos e meio. Conheceram-se em um bar, por intermédio de amigos. “Cláudio, Helena; Helena, Cláudio”. Bastou para que, dali a um tempo, estivessem se agarrando com veemência, ao som de alguma banda que desagradava a ambos. No início do namoro, ele era louco por ela. Depois, ela por ele. Finalmente, após um curto período de desencanto mútuo, chegaram a um nível equiparável de paixão. Era um relacionamento conturbado, mas inegavelmente divertido.
_Tu estás sendo impulsivo, Claudinho. Claramente impulsivo.
_Não estou, Maria.
_Sabes que não gosto que me chames assim.
_Perdão. Maria Helena.
Cláudio sempre soube o desgosto dela pelo pré-nome, mas achava atraente sua ligeira irritação. Ela empinava o nariz, rangia os dentes e, graciosamente, expunha sua insatisfação, que não-raro inexistia.
_Não posso entender o porquê.
_Sou eu, mea culpa.
_Não me tento a acreditar em ti.
_Pois deverias.
_Acho digno saber a real razão. Não esperneio, nem nada. Aceito, agora conte-me.
_Não me sinto à vontade. A idéia de magoar-te me desagrada.
Na linguagem cinematográfica, um momento como este seria o que chamam de pausa dramática. O rosto de Helena ainda seco, o olhar furtivo de Cláudio e um silêncio brutal. Ele deu um gole três vezes mais longo que o comum no vinho tinto, inspirou e rompeu o falso equilíbrio que ultrapassara dois minutos.
_São seus olhos, querida. São azuis demais.
Levantou-se e foi embora. O bater da porta sinalizou a descida da primeira lágrima dela. Tímida, mas disposta a manifestar tristeza.
II
Não muito tempo depois, Cláudio casou-se com uma mulher bonita de olhos frescos e castanhos.
Já Maria Helena, encontrou a desgraça. Nunca mais fora feliz, pois que, se olhando pelo espelho, descobriu que seus olhos - na verdade- eram azuis demais.
Bernardo Kircove
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(Com o perdão do jabá)
4 comentários:
meia palavra...
cara, seu tino pra cronicas é sensacional.
depois de te ver lendo aquele livro de contos eu deveria ter suspeitado que vc nao só os lia mas que também os escrevia! haha =) adorei os contos, estão muito bons! ^^ ate terça! bjus
muito bons os contos beks.. :)
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