sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Lamenta-se o meu violão.

I. Lamentos

Meu violão emudeceu já há algum tempo, e nada mais faço senão reproduzir os grandes bambas. Oitenta e quatro dias completaram-se na noite de ontem sem que eu escrevesse uma única nota ou um verso despretensioso. Cada vez mais me afundo em um poço de desesperança, não vendo cura para meu male inspiracional - não em um futuro próximo. Desdenha de mim a caneta e o papel; passei a temê-los, inclusive. O motivo de minha crise não chega a ser surpreendente. Sendo sincero, é tão cliché que me enjoa. Acontece que meu amor foi-se embora, levando consigo minha alma de artista.

A viola cantava sozinha quando minha Rosa ainda me amava. Seus olhos cor de mel versavam por si próprios, enquanto seu sorriso possuía melodia. Seu rosto era bossa nova, e muito o compus quando o via a belo prazer. Descendo pelo pescoço moreno, agitavam-se as notas, e, pelos seus seios de encaixes perfeitos, esquentavam-se minhas músicas. Eram tangos quentes, e muito os compus quando os tocava a belo prazer. O umbigo era o portal para um quadril estonteante, que coroava pernas firmes, protagonistas de seu corpo. Molejavam-se; eram puro samba, e muito as compus quando as admirava a belo prazer.

Onde estaria Rosa neste momento. É a pergunta que mais corre minha cabeça nestes tempos vazios de criação. Certamente, a vagabunda está a inspirar outro violão, vagabunda. Oh!, a que ponto cheguei. Fazer de meu amor, escárnio. Tento a acreditar que não mereço a volta de minhas notas, se não saio deste marasmo. Rosa, só penso em Rosa. Onde estás tu, Rosa. Volta para mim. Só choro, todo o tempo. Críamos tu e eu que éramos eternos. Na eternidade da relação, perdemo-nos. Melhor, tu perdeste-me. E agora.

Rosa, Rosa, Rosa. Teu nome de flor; tu’alma de prosa. Cantavas meus versos; e levaste-os, imersos. Na tua própria vingança, sacrificastes nossa aliança. Agora te pergunto, já que não calha outro assunto, chegastes a pensar, que meu violão pagaria o penar? Não creio que sim, o mal que me fazes, era endereçado somente a mim. Agora vagueio, carente de notas, contemplando meu bloqueio, buscando novas rotas...

II. Retomando

O sol me alimenta, hoje. Acho que tenho esperanças, como aquela velha luz no fim do túnel. Já são noventa e cinco dias, mas, pela primeira vez, me encontro realmente disposto a zerá-los. Ovos mexidos para levantar-se de vez - os fritos são esquisitos e cozidos são deprimentes. Praia para inspirar - o templo de compositores. Está linda neste fim de manhã, chamando seus amantes, provocando-os a mergulhar. A maioria cai em tentação.

Acho que posso criar qualquer coisa de beleza do cenário.

“Rosa acabou comigo... Meu Deus, por quê? Nem Deus sabe o motivo. Deus é bom. Mas não foi bom pra mim... Todo amor um dia chega ao fim.” ¹

Ou não. Copiar caboclos não era exatamente o que eu pretendia, mas não resisti. Afinal, bons versos merecem ser cantados. Ainda mais quando adequam-se tão cruelmente à sua vida.

“O bom artista, juro por Deus não é tolo, na saudade dei o bolo, ela vinha quase certo me encontrar... Hoje, vou trilhando meu caminho, muito embora sozinho, pra ninguém me ver chorar. Se eu chorasse, e a saudade me encontrasse, seria bem envolvido como simples amador. Mas, em matéria de amor, eu conheço na palma da mão, sei também que essa tal de saudade tortura demais um pobre coração.” ²

Tocar meu violão me deixa mais animado, mesmo que sejam lamentos de outrem.

“Assim como o oceano só é belo com luar; assim como a canção só tem razão se se cantar; assim como a nuvem só acontece se chover; assim como o poeta só é grande se sofrer; assim como viver sem ter amor não é viver; não há você sem mim, e eu não existo sem você.” ³

Vê-las indo e voltando nas areias mornas me fez bem. O sol vai se pondo e, mesmo sem cumprir minha missão espinhosa, acho que me livrei do sentimentalismo melodramático um tanto exagerado.

III. A morte do narrador-personagem / O recomeço

João Carlos, o compositor desiludido que andou narrando-nos (a mim e ao leitor) sua vida vazia de criações, acabou que, realmente, nunca mais escreveu. Mas também já não pensava em Rosa, a superou no centésimo primeiro dia, uma sexta-feira. O abandono da caneta de Joca se deu por falta de talento mesmo. Depois do amor fugido, vieram Luiza, Madalena, Lígia, Sabrina, Maria Flor, Cecília e mais algumas outras de menor importância; nenhuma lhe deu a bênção de músicas decentes. Certamente, o leitor que cedeu atenção à história contada pelo próprio violonista deve estranhar sua súbita incompetência, já que ele mesmo citou belas letras inspiradas no corpo de Rosa. Não me levem a mal, vocês, Rosa era mesmo bonita e as intenções de João eram as melhores, mas ele nunca havia externado tais canções, nem mesmo à namorada. Quando o fez, se descobriu péssimo letrista e arranjador.

Não pensem também que ele caiu em desgraça definitiva, aprendeu a tirar proveito da coisa. Continuou por aí, cantando as mazelas dos verdadeiros autores e, num chamego ou outro, culpava os maus amores de uma vida pela falta de inspiração; e mascarava sua falta de talento; e conquistava mais e mais Rosas; e torcia para que elas lhe deixassem.



Bernardo Kircove

¹ http://letras.terra.com.br/chico-buarque/522046/

² http://vagalume.uol.com.br/roberto-ribeiro/proposta-amorosa.html

³ http://letras.terra.com.br/vinicius-de-moraes/49268/

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(Com o perdão do jabá)

Um comentário:

Pedro Cesar disse...

não sei o motivo de nao haver comentairos sobre esse texto, mas essa é, com toda minha ignorante certeza literária, a sua melhor obra